Louise Bourgeois: me faz, desfaz, refaz
Por Giovanna Saliba Montemurro
Impossível lembrar a primeira vez que a vi, ela está em minhas recordações imemoriáveis de arte: como um ícone, um totem. E isso tudo sem status ou glamurização, não uma obra de uma grande artista, mas antes uma grande obra de alguma artista.
Para mim, essa foi Spider de Louise Bourgeois até tempos, confesso, bastante recentes. E não é para menos. A gigante de três metros de altura e aproximadamente 200 quilos de bronze acompanhou, desde 1997, muitos dos meus fins de semana infantis na Marquise do Ibirapuera, onde está em exposição permanente pelo Museu de Arte Moderna (MAM).
No entanto, desde aquela época, o meu crescente conhecimento de mundo e de arte resignificou-a, encheu-a de novos referentes. E é aí que entra uma das mais instigantes características da (que eu considero) boa arte contemporânea. Para o leigo (ou, no caso, para a criança), a arte tem o seu valor estético e emocional, fonte de grande impacto e admiração. Já para aquele que estuda a arte e sua história, a obra agrega, além do primeiro efeito, um segundo de grande valia: a reflexão.
Foi lendo Paulo Herhenhoff que aprendi sobre ela, mas foi vendo Denise Stoklos em cena (Louise Bourgeois:I do, I undo, I redo) que aprendi a verdadeiramente senti-la.
Psicanálise, família, feminilidade, história. Todos esses são fatores que entraram para a minha atual análise dessa obra de Louise, trazendo a tona a maior parte das problemáticas centrais mais fortes da artista.
Tendo baseado toda a sua obra em suas recordações da infância e nos desdobramentos freudianos dela (“Minha infância nunca perdeu sua magia, nunca perdeu seu mistério, nunca perdeu seu drama”, disse ela), suas esculturas vêm repletas de fortes significados emocionais: daí a necessidade vital da compreensão da biografia da artista e de sua complexa personalidade.
Filha do meio, Louise era freqüentemente colocada em situação de vulnerabilidade pelo pai, que a queria menino. Além disso, sugestões de abuso sexual pelo pai, a amante que ele mantinha na casa da família e o trabalho de recuperação de tapeçarias, povoam toda sua obra, sendo referências fundamentais para seu entendimento.
Após um período estudando Geometria na Sorbonne, decide estudar arte no ateliê de Léger. Lá, em um momento quase epifânico, o pintor guia Louise na descoberta de sua vocação pela escultura. Isso, juntamente com a influência do trabalho com a tapeçaria na infância, traz um dos motes de sua arte: fazer, destruir e refazer num ciclo contínuo.
Tendo em vista as experiências da infância da artista podemos entender melhor Spider. Como uma gigantesta imagem do arquétipo da mãe (uma escultura semelhante foi intitulada por ela Mamma), a obra de Louise “retira a mulher da zona da sombra da história da arte. O sujeito da arte é uma mulher. [A aranha] é trabalho, doação, proteção e previdência. É da potência da teia oferecer-nos acolhida ou enredar-nos como uma presa. 'A domesticidade é muito importante. Eu a acho avassaladora. Como tem de ser prática, paciente e prendada', disse Louise. A afetuosa memória da maternidade está entremeada nas esculturas.” – escreveu Paulo Herhenhoff, grande estudioso e amigo pessoal da artista.
Com seus 95 anos, Louise tem uma teia de convivências que passa por grandes nomes como Miró, Duchamp, Pollock, Munch e Bacon, sendo considerada por muitos a maior artista plástica do século.
Mas essa pequena descrição é incapaz de dar a dimensão de quem é essa grande-pequena mulher. Louise não cabe nesses papéis, não cabe em mim. Sua existência completa desaparecerá junto com ela, apesar dos esforços, é impossível apreendê-la. Parece que o impacto inicial da obra em minha infância adivinhou a densidade emocional e energética colocada pela artista em suas obras. Fica, então, a sensação de intimidade. Louise faz parte de minha vida há tempos e agora mais. Toca-me emocional e intelectualmente e sua obra, hoje, se faz, desfaz e refaz em mim.
Por Giovanna Saliba Montemurro
Impossível lembrar a primeira vez que a vi, ela está em minhas recordações imemoriáveis de arte: como um ícone, um totem. E isso tudo sem status ou glamurização, não uma obra de uma grande artista, mas antes uma grande obra de alguma artista.
Para mim, essa foi Spider de Louise Bourgeois até tempos, confesso, bastante recentes. E não é para menos. A gigante de três metros de altura e aproximadamente 200 quilos de bronze acompanhou, desde 1997, muitos dos meus fins de semana infantis na Marquise do Ibirapuera, onde está em exposição permanente pelo Museu de Arte Moderna (MAM).
No entanto, desde aquela época, o meu crescente conhecimento de mundo e de arte resignificou-a, encheu-a de novos referentes. E é aí que entra uma das mais instigantes características da (que eu considero) boa arte contemporânea. Para o leigo (ou, no caso, para a criança), a arte tem o seu valor estético e emocional, fonte de grande impacto e admiração. Já para aquele que estuda a arte e sua história, a obra agrega, além do primeiro efeito, um segundo de grande valia: a reflexão.
Foi lendo Paulo Herhenhoff que aprendi sobre ela, mas foi vendo Denise Stoklos em cena (Louise Bourgeois:I do, I undo, I redo) que aprendi a verdadeiramente senti-la.
Psicanálise, família, feminilidade, história. Todos esses são fatores que entraram para a minha atual análise dessa obra de Louise, trazendo a tona a maior parte das problemáticas centrais mais fortes da artista.
Tendo baseado toda a sua obra em suas recordações da infância e nos desdobramentos freudianos dela (“Minha infância nunca perdeu sua magia, nunca perdeu seu mistério, nunca perdeu seu drama”, disse ela), suas esculturas vêm repletas de fortes significados emocionais: daí a necessidade vital da compreensão da biografia da artista e de sua complexa personalidade.
Filha do meio, Louise era freqüentemente colocada em situação de vulnerabilidade pelo pai, que a queria menino. Além disso, sugestões de abuso sexual pelo pai, a amante que ele mantinha na casa da família e o trabalho de recuperação de tapeçarias, povoam toda sua obra, sendo referências fundamentais para seu entendimento.
Após um período estudando Geometria na Sorbonne, decide estudar arte no ateliê de Léger. Lá, em um momento quase epifânico, o pintor guia Louise na descoberta de sua vocação pela escultura. Isso, juntamente com a influência do trabalho com a tapeçaria na infância, traz um dos motes de sua arte: fazer, destruir e refazer num ciclo contínuo.
Tendo em vista as experiências da infância da artista podemos entender melhor Spider. Como uma gigantesta imagem do arquétipo da mãe (uma escultura semelhante foi intitulada por ela Mamma), a obra de Louise “retira a mulher da zona da sombra da história da arte. O sujeito da arte é uma mulher. [A aranha] é trabalho, doação, proteção e previdência. É da potência da teia oferecer-nos acolhida ou enredar-nos como uma presa. 'A domesticidade é muito importante. Eu a acho avassaladora. Como tem de ser prática, paciente e prendada', disse Louise. A afetuosa memória da maternidade está entremeada nas esculturas.” – escreveu Paulo Herhenhoff, grande estudioso e amigo pessoal da artista.
Com seus 95 anos, Louise tem uma teia de convivências que passa por grandes nomes como Miró, Duchamp, Pollock, Munch e Bacon, sendo considerada por muitos a maior artista plástica do século.
Mas essa pequena descrição é incapaz de dar a dimensão de quem é essa grande-pequena mulher. Louise não cabe nesses papéis, não cabe em mim. Sua existência completa desaparecerá junto com ela, apesar dos esforços, é impossível apreendê-la. Parece que o impacto inicial da obra em minha infância adivinhou a densidade emocional e energética colocada pela artista em suas obras. Fica, então, a sensação de intimidade. Louise faz parte de minha vida há tempos e agora mais. Toca-me emocional e intelectualmente e sua obra, hoje, se faz, desfaz e refaz em mim.
10 comentários:
Senti uma transcendência muito boa com esse texto, absolutamente interessante, embora eu tenha me sentido um pouco perdido pelo meu desconhecimento da figura retratada com muita originalidade e traços pessoais que deixam o artigo com uma assinatura incontestável. (por alguns momentos ao escrever esse comentário, pensei que estivesse fazendo um trabalho de IPT).
bem... ilustre critico =)
sinto muitissimo q tenha se sentido assim no meu ambiente bloguistico =/
De qq maneira mto obrigada pelo comentario =)
Qto a vc ter se sentido perdido, eu diria q o objetivo eh justamente instigar as pessoas a buscarem info sobre a artista, uma vez q me senti incapaz de fazer um relato mais concreto sobre ela
Se quiser tenho bastante material... vale a pena!
=***
Muuuuuuito bom, Gi!
Aprovadíssima!
nunca imaginei que pudesse existir tanta coisa em uma aranha... bem interessante.
mas eu fiquei um tanto quanto decepcionado pelo fato de que você não citou habermas......
Bem João, Raul Seixas já diria que há muito mais em uma aranha do que vc parece imaginar hauahauahauahuaahua Brincadeiraaa =P
Bem... eu diria que Habermas ta presente na temática: "Habermas e as artes pláticas contemporaneas" hehehe
=***
Gi,
é incrível, mas seu relato sobre o primeiro encontro com a Aranha na infância é quase idêntico ao meu. Só que antes da exposição permanente, conheci Louise numa bienal em 1996, aos 13 anos. Aquele momento, entre tantas obras contemporâneas, apenas Louise falou comigo. Eu estava me descobrindo mulher, questionando a mulher, havia menstruado apenas 1 ano antes e lidava com essa nova fase. Além da Aranha, aquela bienal tinha todo um espaço com diversas esculturas dela. As mamas em bronze, múltiplas e diversas, a feminilidade e a força no mesmo ser, mesma obra. Louise me ensinou sobre ser feminina, fêmea e forte. Já crescia num ambiente assim, mas expressá-lo artisticamente tornou-o instintivo, emocional, não apenas racional.
Por isso, Louise dói (ou ao menos deveria) em todas nós. Infância, sexo, sexualidade, identidade e força.
Só uma dica, se for usar como artigo, é bom apresentar a artista antes da experiência pessoal. No caso de Louise, diria que seu texto é incrível.
beijos
sim sim =)
Apesar de tudo não é bem um artigo, o foco é mesmo a minha experiência... é mais uma crônica ou qq coisa assim =) Nao quis fazer nada mto informativo (na vdd nao é q nao quis, simplesmente nao consegui)
Mas sei que as referencias concretas acabaram ficando poucas
Vlw pelo comentario Elis =)
=***
oi Gi
Acho que os comentários mais profundos ficaram naqueles que já lhe passei.
Então vou postar aqui só um rápido elogio, pois conseguiu fazer um texto que toca em sensações íntimas sem deixar de ser profunda de conteúdo e de significado.
Parabéns!
Beijos
Tá ruim! :-P
Zuera!
Beijos beijos beijos!!!!
Muito bom!!!
Como disse o João nunca tinha pensado que uma aranha poderia representar tanto.
É praticamente um new jornalism...
Gostei de verdade e o seu relato incentiva as pessoas a pesquisar sobre ela.
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